Hoje fui invadida pelo perfume dos frutos enormes da velha senhora jaqueira, que ficava bem ao lado da casa da minha vó, um sítio na serra de Petrópolis, com um jardim muito bem cuidado por ela, e uma área totalmente preservada por sua expressa ordem.
Dona Rosinha, como era conhecida a vó Rosa, foi viver nesse sítio, pedaço de mata atlântica, quando se casou, no começo da década de 30. Um lugar fantástico, de onde se via a cadeia de montanhas que chamávamos de "o gigante que dorme", pois parecia um homem deitado, o que ativava nossa imaginação infantil, quando nos deitávamos para o cochilo obrigatório após o almoço, medicinal segundo Dona Rosinha, na varanda, enquanto entre nós voavam beija-flores, em busca do néctar das muitas e belas flores do jardim, logo ali na frente. Hoje vejo que ela foi a primeira ecologista que conheci. Sem pompa, sem título, mulher do campo que amava e conhecia a natureza, destemida, curandeira, que me levava à benzedeira pra eu ser rezada, e, depois abençoada, pela água benta espargida por um punhado de ervas frescas e perfumadas.
Todo ano eu ia pra lá no verão, feliz, solta no mato, comendo fruta no pé, tomando banho de açude, convivendo com os animais. À noite, um monte de criança num quarto, ouvíamos o esturro de onça e ficávamos com mêdo. Dona Rosinha dizia: "a onça não faz mal a ninguém. Ah, se todo o mal do mundo fosse a onça! Pode dormir, ela não vem aqui não." O que ouvi depois de muitos biólogos que estudam esses grandes felinos. Ela sabia porque "sentia" a alma dos bichos.
A casa da minha vó tinha muitos cheiros. Todos deliciosos. As frutas quando viravam doce e licor, que perfume exalavam O refogado chiando na panela, trazia a criançada de volta pra perto da casa. Éramos oito primos, um pequeno batalhão de selvagens descalços, cheios de apetite.
Assim foram muitos anos vivendo a alegria do meu próprio Sítio do Picapau Amarelo, com suas belezas e encantos, reais e imaginários, até que eles, os vilões, os destruidores, começaram a chegar... Não sei bem quem eram, eu era ainda pequena, mas de repente vieram as primeiras notícias de gente desmatando e construindo na parte final da propriedade, longe da casa, bem na área de mata preservada. Junto com eles vieram as propostas de compra. O argumento era de que aquela área era "só mato", e eles não precisavam dela (sic). Justamente aquela mata, que era o orgulho e a paixão de Dona Rosinha. Meus avós estavam lá naquelas mesmas terras há 60 anos, e ali estava seu mundo, e praticamente tudo que minha vó viveu. Eles, claro, não queriam vender. Para onde iriam, agora já perto dos 80 anos?
A invasão foi aumentando, a pressão também. Agora chegava a notícia que já havia até um loteamento na área, e que pessoas já teriam comprado "lotes". Eles procuraram ajuda, mas, infelizmente, como muitas vezes acontece, não só não se consegue a proteção adequada, como ainda se irrita o bandido, que pode se tornar violento. Foi o que aconteceu. Pessoas desconhecidas passaram a aparecer rondando a casa, aquela casa que vivia de portas e janelas abertas, por onde entravam os beija-flores, e de onde se via o gigante que dorme. Agora, portas trancadas, jardim descuidado, pois era perigoso ficar ali cuidando dele, e o temor se tornou real quando meu avô foi agredido covardemente ao sair para encontrar o agente de endemias (aquele que na amazônia a gente chamava de "o homem da Sucam"). Vários homens chegaram, renderam o agente e bateram no meu avô, dizendo que eles tinham que sair antes que algo pior viesse a acontecer... Meu avô, homem orgulhoso, que havia sido campeão de box, não suportou aquela humilhação, poucos dias depois teve um derrame, e jamais se recuperou. Foi internado em Petrópolis, e minha vó estava quase sempre lá com ele. Foi numa dessas idas ao hospital, que "eles" voltaram e atearam fogo na casa. Na casa da vovó. Meus avós eram motoqueiros, acredite. O vô tinha a motoca da época, aquela com uma cadeirinha lateral, e eles viajaram por toda a região. Eles tinham fotos incríveis dessas viagens. Ainda lembro das longas tranças da moça Rosinha, com seu traje de motoqueira, simplesmente linda! Todas as fotos se foram. Fotos de toda a família, toda a história de todos nós, foi consumida no fogo da maldade, da covardia, da ilegalidade que se sente impune, como de fato ficou. O que poderia fazer a senhora dona Rosinha, com o marido idoso no hospital (ele nunca soube quea casa havia sido incendiada), com a casa parcialmente destruída pelo fogo, e a paz destruída por completo?
Meus avós nunca mais habitaram aquela casa. Meu avô morreu no hospital, de desgosto, pois ainda que não tenha sabido do fogo, estava plenamente consciente que a vida naquele lugar acabara para ele, e preferiu não mais habitar nenhum lugar nessa terra. Vovó passoa a se hospedar na casa do irmão, enquanto o sítio era vendido. Bem, entregue seria mais correto. O valor oferecido caiu muito, a invasão, o "loteamento", eram fatos consumados, e praticamente pagaram, digamos, uma indenização. Ela se mudou para um pequeno apartamento de dois quartos na Glória, onde passou seus últimos anos cultivando flores na mínima área externa que dispunha, e contando e recontando as histórias da vida que viveu no sítio. Era como se nada que acontecesse em sua vida no período presente tivesse importância. Sua alma permaneceu na mata fechada, num espaço quântico onde ela jamais deixou de existir, e existe ainda agora. Como a enorme e velha jaqueira, que perfuma minha memória com o aroma que atravessa portais e chega nítido, imperativo, ativando meu olfato e destravando lembranças.
Não é difícil entender porque me chamam neste dia, o espírito de Dona Rosinha, de Dona Jaqueira, da mata florida, perdida, roubada, e matada. Desmatada... Ficam expressos aqui minha homenagem e meu amor àqueles que lutaram, muitas vezes entregando a própria vida, para defender a natureza, ainda que a luta seja inglória, e o preço a pagar tão alto. Obrigada Chico Mendes, irmã Dorothy, José & Maria de Nova Ipixuna no Pará, e sobretudo, obrigada vovó, pois seu nome não está na lista dos heróis, mas eu sei muito bem quem tu fostes.
Dona Rosinha, amiga das onças e das flores, curandeira, cozinheira, uma verdadeira extrativista, muito antes de se cunhar esse termo. Minha ecologista empírica e sábia, que, tal qual árvore boa e frondosa, deixou as sementes que brotaram em mim. Bença vó!
Deus nos abençoe.
Foto:
Armando Begonha, meu pai, com a casa da vovó ao fundo.
